“Uma Cidade Inteira para Lídia Jorge”

Uma cidade inteira para Lídia

Houve citações nas fachadas e no pavimento das ruas, teatro e conferências sobre a vida e obra de uma escritora. Lídia Jorge. Aconteceu no Escritaria, em Penafiel. E este é um texto que começa com um novelo – o do feitiço.

José Mário Silva |

Durante muitas gerações, as mulheres da família de Lídia Jorge chamaram-se, alternadamente, Rosa e Paulina. “Uma das últimas foi a minha avó, camponesa do Sul, sempre de lenço, uma mulher que não era carinhosa mas estava sempre a dar-me coisas, dinheiro para nós, crianças, gastarmos no que quiséssemos.” Essas mulheres da família, que tinham fama de bruxas, antes de morrerem faziam questão de passar às descendentes o “novelo do feitiço”. Chegada a hora, a avó de Lídia chamou a neta: “Ela disse-me: ‘Lidinha, abre a tua mão.’ Então abriu a dela, mas lá dentro não havia nada. Eu escrevo porque também não tenho nada na mão mas ainda assim vos digo: tomem.”Ao contar esta história, que fechou uma tarde de debate no Museu Municipal de Penafiel, no sábado, Lídia Jorge dirigia-se às muitas dezenas de espectadores ali reunidos para ouvirem falar da sua obra e vida. Uma sessão moderada pelo jornalista José Carlos Vasconcelos, que destacou na escritora o perfil de “cidadã sempre atenta ao seu país e ao mundo”, atribuindo-lhe ainda “o mais significativo romance sobre o 25 de Abril de 1974” (“Os Memoráveis”, editado este ano pela Dom Quixote). Já Patrícia Reis vê nela uma ficcionista consumida pela dúvida e pelo medo de falhar, próprios de uma perfeccionista, mas ainda assim capaz de todos os riscos, como uma funâmbula caminhando sempre no arame, lá muito no alto. “Para mim, o seu tema central é a memória”, resumiu a autora de “Por Este Mundo Acima”. Na mesma linha, o crítico e poeta António Carlos Cortez individualizou o “movimento próprio da memória” num conto em particular, “A Instrumentalina”, destacando a prosa com elevada carga poética, o estilo exato, a extrema contenção e economia verbal, em frases “que se aproximam do agenciamento da poesia”. Falaram ainda Fernando Pinto do Amaral (“Lídia é daqueles autores que acreditam no poder transfigurador da literatura”), Inês Pedrosa (admiradora da força de um “trajeto testemunhal” que narra a História, indo do geral para o particular), Maria Manuel Viana (que se deteve nos principais romances da autora, analisando-os um a um), José Fanha e Conceição Brandão.No final, visivelmente emocionada com os testemunhos dos seus pares, a homenageada admitiu sentir-se “sob o efeito de um gigantesco embaraço” e de certa forma “submergida por tanta atenção”. Um sentimento que se prolongou pelos cinco dias da Escritaria, um festival literário que transformou Penafiel na cidade de Lídia Jorge entre 1 e 5 de Outubro. Nas fachadas dos prédios do centro histórico, enormes “post-it” exibiam citações, mas as frases da autora de “O Dia dos Prodígios” também podiam ser lidas em caixas de cartão espalhadas na rua (bastante cobiçadas enquanto memorabilia da Escritaria), em cabides pendurados à porta das lojas, em autocolantes que imitavam pegadas (com excertos do romance “O Vale da Paixão”), em painéis dispostos na principal artéria (Avenida Sacadura Cabral) e em folhas exibidas nas montras, junto às capas dos seus livros, por entre sapatos, artigos de papelaria ou lingerie. O grupo Andaime – formado por alunos de uma escola secundária de Vila Nova de Famalicão, muito bem dirigidos por Fernando Silvestre – deu corpo a excertos de várias obras da homenageada, em interpretações expressivas nas ruas ou nos corredores do museu, muitas vezes envolvendo afinadíssimo canto. Um dos pontos mais altos do evento foi o descerramento de uma frase de Lídia Jorge que ficará inscrita definitivamente no chão diante da Biblioteca Municipal, à espera de ser lida por quem ali passe. A frase – “Não há livro de instruções para salvar a vida: só a literatura se aproxima desse imenso livro” – junta-se a outras que sinalizam, no corpo da cidade, as anteriores Escritarias, dedicadas, desde 2008, a Urbano Tavares Rodrigues, José Saramago, Agustina Bessa-Luís, Mia Couto, António Lobo Antunes e Mário de Carvalho.A segunda sessão de conferências, no domingo à tarde, juntou Pierre Léglise-Costa, Karin von Schweder-Schreiner, Eunice Muñoz, Cucha Carvalheiro, João Céu e Silva, Mónica Baldaque e Mário de Carvalho. Particularmente interessantes foram as intervenções dos dois primeiros oradores, que permitiram avaliar o impacto internacional da obra de Lídia Jorge. Léglise-Costa começou por exibir um exemplar da revista “Magazine Littéraire”, que em 2013 incluiu a escritora portuguesa numa lista das “dez grandes vozes da literatura estrangeira”, explicando depois o caminho percorrido até essa consagração, desde que a publicação dos livros de Lídia Jorge teve início em França, nos anos 80, com a sua tradução de “Notícia da Cidade Silvestre”. Também tradutora, mas para a língua alemã, Schweder-Schreiner recordou o tempo em que as editoras germânicas não tinham as atuais limitações financeiras e lhe permitiam vir a Lisboa durante algumas semanas, para esclarecer dúvidas e trabalhar diretamente no texto com a autora, em sua casa. Certa vez, recordou, no final de uma longa jornada de trabalho, Lídia Jorge levantou-se e colocou na aparelhagem um disco de música cabo-verdiana. “Eram já altas horas da madrugada e ficámos ali as duas a dançar.”No final da sessão, coube a uma emocionada Lídia Jorge a difícil tarefa de fechar os trabalhos. “Eu creio que uma homenagem destas não tem remate”, começou por dizer, antes de fazer o elogio da Cultura (“com o mínimo dos mínimos conseguimos levar às pessoas o máximo dos máximos”) e das periferias (a propósito de uma mensagem de parabéns enviada pelo presidente da Câmara de Loulé). Referiu-se ainda à frase que o anterior homenageado, Mário de Carvalho, deixou na cidade: “O Mário diz, no seu modo irónico, que ‘a realidade é muito abusadora’. Pois eu acho que para nós, aqui em Penafiel, a realidade é antes muito consoladora.” Lídia Jorge lembrou, por fim, um ditado alemão: “Diz apenas isto: ‘Senhor, faça que aconteça. O amanhã virá por si’. Gosto muito desta ideia. Dá-me serenidade.” Uma ideia perfeita para fechar um encontro literário que pode ter subjacente um impulso de consagração, mas pretende sobretudo celebrar autores de quem ainda se espera muito no futuro.

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