{"id":2290,"date":"2014-10-09T19:01:41","date_gmt":"2014-10-09T19:01:41","guid":{"rendered":"http:\/\/novembro.pt\/portal\/?p=2290"},"modified":"2014-10-12T18:09:19","modified_gmt":"2014-10-12T18:09:19","slug":"uma-cidade-inteira-para-lidia-jorge","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/novembro.pt\/portal\/?p=2290","title":{"rendered":"&#8220;Uma Cidade Inteira para L\u00eddia Jorge&#8221;"},"content":{"rendered":"<header>\n<blockquote>\n<h1>Uma cidade inteira para L\u00eddia<\/h1>\n<\/blockquote>\n<p>Houve cita\u00e7\u00f5es nas fachadas e no pavimento das ruas, teatro e confer\u00eancias sobre a vida e obra de uma escritora. L\u00eddia Jorge. Aconteceu no Escritaria, em Penafiel. E este \u00e9 um texto que come\u00e7a com um novelo &#8211; o do feiti\u00e7o.<\/p>\n<\/header>\n<header><\/header>\n<header>\n<div>Jos\u00e9 M\u00e1rio Silva\u00a0|<\/div>\n<p><time datetime=\"2014-10-06 20:40:00\">20:40 Segunda feira, 6 de outubro de 2014<\/time><\/p>\n<\/header>\n<div>\n<section id=\"media\">\n<figure><\/figure>\n<\/section>\n<section id=\"conteudo\">Durante muitas gera\u00e7\u00f5es, as mulheres da fam\u00edlia de L\u00eddia Jorge chamaram-se, alternadamente, Rosa e Paulina. &#8220;Uma das \u00faltimas foi a minha av\u00f3, camponesa do Sul, sempre de len\u00e7o, uma mulher que n\u00e3o era carinhosa mas estava sempre a dar-me coisas, dinheiro para n\u00f3s, crian\u00e7as, gastarmos no que quis\u00e9ssemos.&#8221; Essas mulheres da fam\u00edlia, que tinham fama de bruxas, antes de morrerem faziam quest\u00e3o de passar \u00e0s descendentes o &#8220;novelo do feiti\u00e7o&#8221;. Chegada a hora, a av\u00f3 de L\u00eddia chamou a neta: &#8220;Ela disse-me: &#8216;Lidinha, abre a tua m\u00e3o.&#8217; Ent\u00e3o abriu a dela, mas l\u00e1 dentro n\u00e3o havia nada. Eu escrevo porque tamb\u00e9m n\u00e3o tenho nada na m\u00e3o mas ainda assim vos digo: tomem.&#8221;Ao contar esta hist\u00f3ria, que fechou uma tarde de debate no Museu Municipal de Penafiel, no s\u00e1bado, L\u00eddia Jorge dirigia-se \u00e0s muitas dezenas de espectadores ali reunidos para ouvirem falar da sua obra e vida. Uma sess\u00e3o moderada pelo jornalista Jos\u00e9 Carlos Vasconcelos, que destacou na escritora o perfil de &#8220;cidad\u00e3 sempre atenta ao seu pa\u00eds e ao mundo&#8221;, atribuindo-lhe ainda &#8220;o mais significativo romance sobre o 25 de Abril de 1974&#8221; (&#8220;Os Memor\u00e1veis&#8221;, editado este ano pela Dom Quixote). J\u00e1 Patr\u00edcia Reis v\u00ea nela uma ficcionista consumida pela d\u00favida e pelo medo de falhar, pr\u00f3prios de uma perfeccionista, mas ainda assim capaz de todos os riscos, como uma fun\u00e2mbula caminhando sempre no arame, l\u00e1 muito no alto. &#8220;Para mim, o seu tema central \u00e9 a mem\u00f3ria&#8221;, resumiu a autora de &#8220;Por Este Mundo Acima&#8221;. Na mesma linha, o cr\u00edtico e poeta Ant\u00f3nio Carlos Cortez individualizou o &#8220;movimento pr\u00f3prio da mem\u00f3ria&#8221; num conto em particular, &#8220;A Instrumentalina&#8221;, destacando a prosa com elevada carga po\u00e9tica, o estilo exato, a extrema conten\u00e7\u00e3o e economia verbal, em frases &#8220;que se aproximam do agenciamento da poesia&#8221;. Falaram ainda Fernando Pinto do Amaral (&#8220;L\u00eddia \u00e9 daqueles autores que acreditam no poder transfigurador da literatura&#8221;), In\u00eas Pedrosa (admiradora da for\u00e7a de um &#8220;trajeto testemunhal&#8221; que narra a Hist\u00f3ria, indo do geral para o particular), Maria Manuel Viana (que se deteve nos principais romances da autora, analisando-os um a um), Jos\u00e9 Fanha e Concei\u00e7\u00e3o Brand\u00e3o.No final, visivelmente emocionada com os testemunhos dos seus pares, a homenageada admitiu sentir-se &#8220;sob o efeito de um gigantesco embara\u00e7o&#8221; e de certa forma &#8220;submergida por tanta aten\u00e7\u00e3o&#8221;. Um sentimento que se prolongou pelos cinco dias da Escritaria, um festival liter\u00e1rio que transformou Penafiel na cidade de L\u00eddia Jorge entre 1 e 5 de Outubro. Nas fachadas dos pr\u00e9dios do centro hist\u00f3rico, enormes &#8220;post-it&#8221;\u00a0exibiam cita\u00e7\u00f5es, mas as frases da autora de &#8220;O Dia dos Prod\u00edgios&#8221; tamb\u00e9m podiam ser lidas em caixas de cart\u00e3o espalhadas na rua (bastante cobi\u00e7adas enquanto\u00a0memorabilia\u00a0da Escritaria), em cabides pendurados \u00e0 porta das lojas, em autocolantes que imitavam pegadas (com excertos do romance &#8220;O Vale da Paix\u00e3o&#8221;), em pain\u00e9is dispostos na principal art\u00e9ria (Avenida Sacadura Cabral) e em folhas exibidas nas montras, junto \u00e0s capas dos seus livros, por entre sapatos, artigos de papelaria ou\u00a0lingerie. O grupo Andaime &#8211; formado por alunos de uma escola secund\u00e1ria de Vila Nova de Famalic\u00e3o, muito bem dirigidos por Fernando Silvestre &#8211; deu corpo a excertos de v\u00e1rias obras da homenageada, em interpreta\u00e7\u00f5es expressivas nas ruas ou nos corredores do museu, muitas vezes envolvendo afinad\u00edssimo canto. Um dos pontos mais altos do evento foi o descerramento de uma frase de L\u00eddia Jorge que ficar\u00e1 inscrita definitivamente no ch\u00e3o diante da Biblioteca Municipal, \u00e0 espera de ser lida por quem ali passe. A frase &#8211; &#8220;N\u00e3o h\u00e1 livro de instru\u00e7\u00f5es para salvar a vida: s\u00f3 a literatura se aproxima desse imenso livro&#8221; &#8211; junta-se a outras que sinalizam, no corpo da cidade, as anteriores Escritarias, dedicadas, desde 2008, a Urbano Tavares Rodrigues, Jos\u00e9 Saramago, Agustina Bessa-Lu\u00eds, Mia Couto, Ant\u00f3nio Lobo Antunes e M\u00e1rio de Carvalho.A segunda sess\u00e3o de confer\u00eancias, no domingo \u00e0 tarde, juntou Pierre L\u00e9glise-Costa, Karin von Schweder-Schreiner, Eunice Mu\u00f1oz, Cucha Carvalheiro, Jo\u00e3o C\u00e9u e Silva, M\u00f3nica Baldaque e M\u00e1rio de Carvalho. Particularmente interessantes foram as interven\u00e7\u00f5es dos dois primeiros oradores, que permitiram avaliar o impacto internacional da obra de L\u00eddia Jorge. L\u00e9glise-Costa come\u00e7ou por exibir um exemplar da revista &#8220;Magazine Litt\u00e9raire&#8221;, que em 2013 incluiu a escritora portuguesa numa lista das &#8220;dez grandes vozes da literatura estrangeira&#8221;, explicando depois o caminho percorrido at\u00e9 essa consagra\u00e7\u00e3o, desde que a publica\u00e7\u00e3o dos livros de L\u00eddia Jorge teve in\u00edcio em Fran\u00e7a, nos anos 80, com a sua tradu\u00e7\u00e3o de &#8220;Not\u00edcia da Cidade Silvestre&#8221;. Tamb\u00e9m tradutora, mas para a l\u00edngua alem\u00e3, Schweder-Schreiner recordou o tempo em que as editoras germ\u00e2nicas n\u00e3o tinham as atuais limita\u00e7\u00f5es financeiras e lhe permitiam vir a Lisboa durante algumas semanas, para esclarecer d\u00favidas e trabalhar diretamente no texto com a autora, em sua casa. Certa vez, recordou, no final de uma longa jornada de trabalho, L\u00eddia Jorge levantou-se e colocou na aparelhagem um disco de m\u00fasica cabo-verdiana. &#8220;Eram j\u00e1 altas horas da madrugada e fic\u00e1mos ali as duas a dan\u00e7ar.&#8221;No final da sess\u00e3o, coube a uma emocionada L\u00eddia Jorge a dif\u00edcil tarefa de fechar os trabalhos. &#8220;Eu creio que uma homenagem destas n\u00e3o tem remate&#8221;, come\u00e7ou por dizer, antes de fazer o elogio da Cultura (&#8220;com o m\u00ednimo dos m\u00ednimos conseguimos levar \u00e0s pessoas o m\u00e1ximo dos m\u00e1ximos&#8221;) e das periferias (a prop\u00f3sito de uma mensagem de parab\u00e9ns enviada pelo presidente da C\u00e2mara de Loul\u00e9). Referiu-se ainda \u00e0 frase que o anterior homenageado, M\u00e1rio de Carvalho, deixou na cidade: &#8220;O M\u00e1rio diz, no seu modo ir\u00f3nico, que &#8216;a realidade \u00e9 muito abusadora&#8217;. Pois eu acho que para n\u00f3s, aqui em Penafiel, a realidade \u00e9 antes muito consoladora.&#8221; L\u00eddia Jorge lembrou, por fim, um ditado alem\u00e3o: &#8220;Diz apenas isto: &#8216;Senhor, fa\u00e7a que aconte\u00e7a. O amanh\u00e3 vir\u00e1 por si&#8217;. Gosto muito desta ideia. D\u00e1-me serenidade.&#8221; Uma ideia perfeita para fechar um encontro liter\u00e1rio que pode ter subjacente um impulso de consagra\u00e7\u00e3o, mas pretende sobretudo celebrar autores de quem ainda se espera muito no futuro.<\/section>\n<\/div>\n<p><em>Ler mais:\u00a0<a href=\"http:\/\/expresso.sapo.pt\/uma-cidade-inteira-para-lidia=f892514#ixzz3Ffhll116\">http:\/\/expresso.sapo.pt\/uma-cidade-inteira-para-lidia=f892514#ixzz3Ffhll116<\/a><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Consulte mais fotos\/v\u00eddeos\/not\u00edcias do evento no nosso site em EVENTOS e na nossa p\u00e1gina do facebook:\u00a0https:\/\/www.facebook.com\/gruponovembro?fref=ts<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma cidade inteira para L\u00eddia Houve cita\u00e7\u00f5es nas fachadas e no pavimento das ruas, teatro e confer\u00eancias sobre a vida e obra de uma escritora. L\u00eddia Jorge. Aconteceu no Escritaria, em Penafiel. 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