
O ENCANTADOR DE ESPERAS
Certa vez, pedi a Chichorro um aguarela para compor a capa de um livro. Razões levaram que o desenho não tivesse esse destino. O quadro de Chi-chorro transitou para a sala de minha casa. Eu mesmo fixei a moldura na parede. Nessa mesma noite, uma estranha inquietação me despertou e me conduziu, pelos obscuros meandros da sala. Contemplei o quadro, toquei a moldura e entendi, então, que estava confirmando a sua permanência. Como se ela se pudesse ter soltado e esvoaçado por sobre os móveis. Tinha sido esse o sonho que me retirara do leito.
Sonho estranho? Talvez não. (…)
Chichorro talvez seja um príncipe encantado que salvará essas donzelas do silêncio e do esquecimento. Mas certamente, ele é um exímio encantador de sonhos. Sabe bem esperar por esses sonhos, na varanda inventada por este moçambicano.
Nasceu em 1941 em Lourenço Marques.
Trabalhou como desenhador de publicidade e arquitectura, e como decorador de pavilhões para feiras internacionais em Moçambique. Fez cenografias para espectáculos e ilustrou vários livros.
De 1982/85 é bolseiro do Governo Espanhol, em Madrid, para cerâmica (Taller Azul) e zincogravura (Óscar Manezzi).
Em 1986 é bolseiro do Governo Português, vivendo em Portugal desde essa data e dedicando-se exclusivamente à pintura.